Vamos percorrer as Escrituras e nos deixar tocar pela revelação da nossa dignidade, em dez afirmações.
Primeira: somos criaturas. Nossa primeira dignidade é a de sermos criaturas. Não somos coisa, um acaso, um objeto, mas alguém que o Criador desejou, pensou, criou e amou. Ser criatura é ter relação com o Criador, é ter uma abertura natural para Deus, uma capacidade de diálogo e de comunhão com Ele.
Segunda: somos imagem e semelhança de Deus. O ser humano é criado com a marca, a estrutura, o selo de Deus. Somos mais parecidos com Deus do que com a terra. O divino nos fez humanos, portanto, quanto mais nos identificamos com o divino, mais humanos seremos.
Terceira: somos amigos de Deus. Ele caminhava com Adão e Eva no paraíso. Deus falava com Moisés como a um amigo (cf Ex 33). Abraão pela fé tornou-se amigo de Deus. O livro da sabedoria diz que Deus é ''amigo da vida'' (Sf 11,26). Jesus nos chama de amigos e nos trata como seus amigos. Amizade com Deus, eis nossa dignidade.
Quarta: somos servos de Deus, de sua vontade, de seu reino. Ser servo de Javé é o título que mais aparece nas Escrituras. Servos, não no sentido de escravos, mas, de intermediários, representantes, colaboradores de Deus. Ser servo é ser digno de confiança e de receber ordens, incumbências, revelações de Deus, e ter uma vida de gratuidades com os irmãos. Servir e reinar.
Quinta: somos filhos e filhas de Deus. Aqui está a máxima elevação e condecoração do ser humano. Somos da raça de Deus, seus familiares, seus consanguíneos, predestinados a ser filhos através de Jesus, pelo seu sangue e sua cruz. Nossa relação filial com o Pai é o mais alto grau de nossa dignidade. O Pai se desdobra em carinho, cuidados e ternura por seus filhos. Ele coloca em nós o seu afeto, sua complacência, sua alegria.
Sexta: somos discípulos. Ser discípulo de Jesus é segui-lo, imitá-lo, viver a sua vida. O discípulo é amado, chamado, escolhido, enviado. Todo ser humano é chamado ao seguimento de Jesus pela pregação do evangelho a toda criatura. Todos os povos são chamados a ser seus discípulos. Eis mais um fundamento da dignidade humana.
Sétima: somos apóstolos. Somos operários de Deus, missionários do reino, evangelizadores. Jeremias e Paulo apóstolo escrevem que somos chamados à vida e à missão desde o útero materno. Todo ser humano é porta-voz de Deus e de seu reino. Quem evangeliza tem seu nome escrito no céu. Nosso maior apostolado é o testemunho de vida. Pessoas, fora da Igreja, vivendo retamente são apóstolos do bem, da verdade, da justiça, do amor.
Oitava: somos herdeiros. Somos herdeiros da vida eterna, do céu, de Deus mesmo (cf Rm 8,17). Os pobres são ricos na fé e herdeiros do reino dos céus (cf Tg 2,5). Somos herdeiros da graça. Quanta riqueza, quanto tesouro, quanta herança recebemos como cidadãos do céu. A dignidade humana se plenifica no céu porque desde já somos ricos de Deus.
Nono: somos reis. As escrituras afirmam que reinaremos com Cristo na eternidade, que seremos coroados, glorificados. Vinde e tomai posse do reino. Todo cristão pelo batismo recebe a dignidade de sacerdote, profeta e rei. Não nos é dado somente sofrer com Cristo, mas, com Ele reinar. A primeira criatura que alcançou esta glória é Maria, mulher, virgem, mãe, discípula e rainha. A dignidade humana é exaltada no céu, na eternidade.
Somos santos. O povo de Deus é santo. Toda humanidade é chamada à santidade. Ser santo é ser bom, correto, fraterno, enfim, ser santo é sermos melhores do que somos. Encontramos santos em todos os lugares e religiões.
Em nome dessa dignidade lutaremos pela superação da fome, da tortura, da exclusão, da violência, da miséria. O amor fraterno e a solidariedade se fundamentam na dignidade humana que nos é conferido pelo Criador. O Natal é a comparação da dignidade humana, Deus se fez carne
DOM ORLANDO BRANDES
Arcebispo de Londrina
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