segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Natal: encontro e reencantamento

Palavra do Bispo Dom Orlando Brandes


O cristianismo não começa com uma grande ideia ou grande moral, mas, com um encontro, uma experiência, um acontecimento entre a pessoa humana e Jesus Cristo. No princípio está o encontro. Os evangelhos registram grandes e transformantes encontros das pessoas com Jesus. O encontro mexe, toca, transforma, convence. Quando esse encontro é com Jesus, tem características especiais. 

Nossa vida é feita de encontros. A ''arte do encontro'' é tão fundamental a ponto de podermos dizer: ''Eu sou o que foram meus encontros''. Eu sou mais eu e o outro é mais ele mesmo a partir do encontro. Eis a ''ciência da singularidade'': eu me torno eu na relação com um tu. Graças ao encontro o outro é um você, um próximo, um amigo, um companheiro, um parceiro, um familiar, um irmão, não apenas um indivíduo. 

Os encontros com Jesus como registram os Evangelhos geram atração, fascinação, admiração, assombro, transformação, mas, principalmente encantamento. O Documento de Aparecida enfoca a necessidade que temos hoje de facilitar e realizar um encontro ou reencontro com Jesus Cristo que suscite paixão, enamoramento, reencantamento, aliança, amizade. Eis o que é a porta de entrada para a iniciação cristã. 

Um dos temas chaves de teologia do Papa Bento 16 é o da amizade com Jesus. ''A íntima amizade com Jesus é o ponto de referência, do qual tudo depende'' (Jesus de Nazaré, vol. I pag.10). A amizade com Jesus torna a vida grande, livre e bela. Nada temos a perder, mas, tudo a ganhar.

O Documento de Aparecida apresenta sete características do encontro com Jesus. Primeira, é um encontro ''vivo, decisivo, persuasivo''. Cada palavra aqui tem um peso. Trata-se de um encontro pessoal, marcante, vivificante, irradiante, transformante. Certamente, o Menino de Belém nos oferece singular oportunidade para tal experiência. 

Segunda: ''um encontro fundante'', isto é, tem fundamento, dá segurança, muda o estilo de vida, abre horizontes, provoca rupturas. Gera um novo parto, nova vida, novos critérios, novas atitudes. 

Terceira: ''um encontro fascinante'', que envolve a mente, o coração, a alma, as emoções, provoca maravilhamento, encantamento, paixão. ''Não há outro tesouro, outra felicidade outra prioridade que Jesus'' (Dap 14). Encontramos no seguimento de Jesus a beleza e a alegria de ser cristão. 

Quarta: ''um encontro íntimo'' que cria vínculo de afetividade e de amizade, que se sustenta com o compromisso e a fidelidade, que consiste na troca de coração, de consciência, de critérios. Ser íntimo é ser confidencial, aberto, confiante, familiar. Em Jesus encontramos um amigo, um irmão que é o Salvador, o Filho de Deus. 

Quinta: ''um encontro experimental'', portanto Jesus Cristo é alguém, um Tu e não uma teoria, uma ideia, uma doutrina. Realiza-se um envolvimento pessoal cativante e inesquecível, como aconteceu com Paulo Apóstolo: ''Eu fui conquistado por Cristo Jesus'' (Fl. 3,12). Este é o fim supremo e todo o resto é perda ou até lixo. 

Sexta: ''um encontro fecundo'' que não é apenas emoção, não é algo romântico, mas que se expressa no seguimento de Jesus, na conversão, na mudança da vida. Jesus Cristo é então ''encontrado, seguido, amado, adorado, anunciado e comunicado'' (Dap 14). 

Sétima: ''um encontro potencializador'' que desenvolve e reforça nossas potencialidades, abre outras portas, soluções e horizontes, abrindo o coração para o mistério, a graça, a santidade. Cristo dilata e pontecializa nossas aptidões, nossas qualidades e encoraja-nos para a criatividade. 

Oitava: ''um encontro fascinante'' que mexe, move, atrai empolga, entusiasma. Encontro que suscita ternura e vigor, bondade e coragem, amizade, responsabilidade, doçura e oblação. 

Desejo que o Natal seja um experiência de encontro e reencantamento por Jesus Cristo, revigorando nossa esperança, nossa alegria, nossa paz e nossa opção de ''nada antepor a Cristo Jesus''. O Menino de Belém cativou os anjos, Maria, José, os pastores e os magos. Que Ele encontre em nós abertura aceitação, empatia, interesse de amá-lo e segui-lo em vista de uma Igreja atraente e de um mundo melhor.

DOM ORLANDO BRANDES 
Arcebispo de Londrina

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