domingo, 22 de janeiro de 2012

Deus é inefável (Que não se pode exprimir por palavras)

Palavra do Bispo Dom Orlando Brandes

Jesus dirigia-se filialmente ao Pai com um nome muito carinhoso, ''Abba'', papaizinho, papai, painho. Todavia, ao ensinar o ''Pai Nosso'' Jesus reza ao paizinho ''que está no céu''. Eis a inefabilidade de Deus, está no céu, nas alturas e, ao mesmo tempo, está tão perto, tão acessível, tão junto de nós ''Filipe, quem me viu, viu o Pai'' (Jo. 14,9). 

Deus é inefável, está acima de nós e está em nós, é por nós. É preciso descobri-lo em todas as coisas. Há grande diferença entre o ''Deus dos filósofos'' e o Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo, o ''Deus da Bíblia''. A inefabilidade de Deus é revelada nas Escrituras. 

O apóstolo Paulo reflete sobre a inefabilidade de Deus quando escreve: ''Ele é o Senhor do céu e da terra, dá a todos a respiração, a vida e tudo o mais. Porém, não está longe de nós. Nele vivemos nos movemos e existimos. Somos também de sua raça'' (cf. At. 17,24-28). Deus é inefável porque é Onipotente nas alturas, profundo nos abismos e frágil na manjedoura, na cruz, na hóstia, no pobre. Todo-poderoso, mas, ao mesmo tempo rico em misericórdia, em paciência, em compaixão, em providência. Eis a humildade de Deus, a ponto de escolher pessoas limitadas, defeituosas e pecadoras para serem seus ungidos, seus consagrados, seus representantes. 

Deus, invisível, oculto transcendente, escondido, incompreensível, é ''mistério'' (Rm 11,33), mas, não é absurdo, nem invenção do homem. Ele é o Absoluto, como dizia Santo Agostinho, ''Quanto mais Te encontro, mais Te procuro''. Deus é sempre maior do que nós podemos compreender e dizer sobre Ele. O Santo, o Altíssimo, o Inominável, age em nós, faz maravilhas em nossas pessoas, apesar de nossas debilidades. 

O Invisível tornou-se visível, o Intocável é tocado por nós, o Inacessível está perto, está próximo, é simples. A grandeza e a simplicidade de Deus expressam sua inefabilidade. Ninguém deve se apossar Dele, nem manipular ou instrumentalizar. O Sumo Bem, o Altíssimo desceu, abrevia-se numa criança, fez-se servo, pobre e foi suspenso numa cruz. Nem na terra, nem no céu, Deus será totalmente compreendido. Só Ele é Deus. Mas, na criança de Belém Ele ''tossiu e gemeu, chorou e mamou''. Eis o Deus inefável. Não nos cabe decifrá-lo, mas, admirá-lo, adorá-lo, obedecê-lo. A melhor atitude é a do silêncio, da adoração, da alegria e da gratidão, pela sua inefabilidade, pois Ele está nos altos céus e no mais íntimo do nosso coração. Ele é o mais Além e ''está mais em nós do que nossa alma'' (Santo Tomas). 

Deus nos atrai pela sua onipotência e, ao mesmo tempo; pela sua proximidade. Ele é excelso e acessível, ''Tudo em todos.'' Sobre o Deus inefável dizia Santo Ambrósio: ''Quando Tu oh Deus é perscrutado, não és descoberto; quando és amado, és alcançado''. O caminho mais curto que nos leva a Deus é o da simplicidade e da beleza. ''Tu estavas dentro de mim e eu Te buscava fora de mim'' (Santo Agostinho). 

É ainda Santo Agostinho que escreve: ''Deus é grande, ótimo, poderosíssimo, onipotentissimo, misericordiosíssimo, justíssimo, secretíssimo, presentissimo, formosíssimo''. Ele, porém, é ao mesmo tempo melodia infinita, fragrância que o vento não leva abraço que não cansa médico das feridas, beleza que me olha, amor que arde e nunca se consome. Que ''eu possa me abraçar a Ti meu único bem''. Agostinho descreve assim a inefabilidade de Deus. 

S. Boaventura indica o caminho para a experiência da inefabilidade de Deus: ''Quem quer encontrar Deus deve, consultar a graça e não a ciência; o desejo e não a inteligência; o gemido da oração e não o estudo dos livros; o esposo e não o professor; Deus, e não o homem; a escuridão e não a claridade; o fogo, e não a luz''. Por este mesmo caminho fazemos a experiência do Deus inefável. 

DOM ORLANDO BRANDES 
Arcebispo de Londrina

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