Primavera bíblica - 03/09/2011
Nossa esperança é que o Sínodo da Palavra e o Documento Verbum Domini - A Palavra do Senhor - inspirem uma primavera bíblica na Igreja. No Livro, 'Um Pároco de Aldeia', Bernanos faz essa pergunta: 'Que fizeste com minha Palavra?'. Tal indagação nos faz pensar. Antes do Concílio Vaticano II fomos proibidos de ler determinadas páginas da Bíblia e, então, recebemos o livro 'História Sagrada'. Afastamos a Bíblia do povo. Posteriormente, a Bíblia tornou-se livro de estudo para estudiosos de teologia. Outros fizeram dela um enfeite em sua casa.
A maioria dos católicos só tem contato com a Palavra de Deus e as Sagradas Escrituras nas celebrações litúrgicas. Nossos microfones geralmente são ruins e os leitores despreparados e desqualificados, a Palavra se perde. Não cai no ouvido, mas no chão. Obrigamos a Palavra cair no chão. No lugar da Bíblia colocamos catecismos e terços nas mãos do povo. Isso não está errado. Todavia não há centralidade nem prioridade para a Bíblia.
Uma chance bíblica sem igual é a homília na missa. Nem sempre as homílias são fiéis à Palavra. Perdemos uma oportunidade bíblica ímpar. Ainda hoje poucas paróquias têm cursos bíblicos e a maioria do povo não aprende fazer a leitura orante da Bíblia. Portanto, temos um longo caminho a percorrer. Você leitor, qual foi à última vez que meditou o livro de Tobias, Rute, Ester, Jó? Que experiência tem com o livro do Apocalipse, com o livro dos Atos dos Apóstolos?
Qual dos doze profetas menores você mais leu e interiorizou? Após Vaticano II houve um 'salto bíblico' na Igreja. Proliferaram os estudos bíblicos, os círculos bíblicos marcaram época, a consciência bíblica cresceu e foram criadas escolas e institutos bíblicos. Temos muitas traduções da Bíblia, movimentos e pastorais despertaram para fazer acontecer o primado da Palavra. Mesmo assim, ainda temos muito a crescer, até chegarmos a um 'catolicismo bíblico'. Nesse sentido devemos dobrar os joelhos em gratidão pelo Sínodo da Palavra e o Documento Verbum Domini.
Bento XVI é um papa bíblico, tocado profundamente por um amor imenso pela Palavra de Deus. Ele convoca a Igreja a ser 'mestra da escuta' da Palavra. Assim, poderemos alcançar um grande amor, para com a Palavra Deus, e realizarmos um encontro pessoal vivo e decisivo com as Sagradas Escrituras. Onze vezes a Verbum Domini nos pede para ter familiaridade com a Palavra. É preciso abeirar-se, debruçar-se, apegar-se, familiarizar-se, entrar e permanecer na Palavra. Estes verbos chamam nossa atenção. A Igreja não pode ser mais a mesma após este Sínodo. Chegou a hora de um solavanco bíblico, de uma comoção e mobilização bíblica no mundo. A Igreja nasce, vive, funda-se sobre a Palavra, e cresce quando escuta, celebra e estuda as Escrituras.
A centralidade da Palavra será fonte de renovação da Igreja, será animação de toda a vida eclesial, promoverá e aprofundará o ecumenismo, ajudará a enfrentar os desafios do nosso tempo. Uma Igreja que escuta a Palavra não pode ser sonolenta, parada, acomodada, engessada. Nossos fiéis sintam seu coração transpassado pela Palavra. Que ela corra veloz e não seja acorrentada, porque, ela é o coração de toda a atividade eclesial. Que faremos de agora em diante com a Palavra? Não podemos ser os mesmos, chegou a hora da Bíblia.
Dom Orlando Brandes
Arcebispo de Londrina
Arcebispo de Londrina
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